terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Decadência de uma tradição cultural da festa de São Sebastião na cidade de Jataúba-PE
Em todos os tempos e lugares nas mais diversas culturas e povos espalhados pelo mundo, dentro da historia linear as manifestações humanas se apresentam de modos distintos e variados. O comportamento de um povo, suas aptidões, sua relações sociais, suas festas, seus rituais, suas crenças, enfim a sua historia e a sua trajetória são frente às experiências de vida aspectos regulatórios que desenham a sua identidade e sua atuação dentro da sociedade.

Desde a colonização do Brasil pelos portugueses católicos, que toda uma cultura foi trazida das igrejas e daquelas comunidades, que foi ao longo do tempo se incrementando com as outras duas culturas tais como a indígena e a africana. Em seu bojo de rituais católicos cheios de devoções e piedade cristã os portugueses celebravam com fervor seus santos e faziam de cada vila ou cidade fundada um padroado.

Até hoje depois de quinhentos e dezessete anos o maior país católico do mundo em muitos lugares continua a perpetuar com festas e folguedos os santos padroeiros nos espaços e cidades a eles dedicados. No interior do Brasil aonde ainda existe a monotonia de gente ordeira, a tradição é arraigada e conservasse com grande empenho a cada ano a festa do protetor de sua terra. Em nossa cidade desde a sua colonização pelos tropeiros nos idos de 1857 que se registra a festa de São Sebastião mártir com a ocorrência de eventos distintos que iam desde a alvorada até a retreta e a dança pela noite afora, que encerrava o grande dia 20 do mês de janeiro. São 160 anos de tradição e fé herdados dos antepassados de Jataúba.

 
Certamente após muitos anos muita coisa tem sofrido a ação da modernidade e da rapidez capitalista como é processada a comunicação e as informações. No entanto se faz necessária aqui uma reflexão do que vem a ser tradição e religiosidade popular. 

Segundo Aurélio: 

1. Ato de transmitir ou entregar. 

2. Transmissão oral de lendas, fatos, etc.. De idade em idade, geração em geração. 

3. Conhecimento ou pratica resultante de transmissão oral ou de hábitos inveterados.


Esse conceito do dicionário esclarece e traz para discussão pontos pertinentes que devem ser levados em consideração na história feita pela festa do padroeiro dessa cidade. A sociedade Jataubense desde sempre levou a sério as suas festividades e datas comemorativas. Toda tradição herdada de muitos anos e do empenho de muitas comissões fizeram da festa de São Sebastião uma das mais conhecidas da região acorrendo muita gente das circunvizinhanças trazendo consigo a alegria de rever seus familiares de perto ou de longe, com suas promessas e ex-votos ao santo protetor, “São Sebastião da capelinha” assim chamado outrora.

Em um momento de muita devoção e piedade as pessoas geralmente se encontram e se unem em suas manifestações mais singulares de expressão de fé e de confraternização. Observamos, portanto nesse aspecto a religiosidade do povo aflorada e arraigada na cultura e no cotidiano como nos atesta o documento de Aparecida:

“A cultura, em sua compreensão maior, representa o modo particular com o qual os homens e os povos cultivam sua relação com a natureza e com os seus irmãos, com eles mesmos e com Deus, a fim de conseguir uma existência plenamente humana. Com isso a fé só é adequadamente professada, entendida e vivida quando penetra profundamente no substrato cultural de um povo.” (cf. 476-477, 2007).

Considerando as modificações ocorridas com a migração de pessoas nascidas na cidade de Jataúba e com desaparecimento dos mais velhos se foi perdendo muito da riqueza que se revestia a festa do padroeiro com seus ritos e modos de comportamentos nas famílias, nas ruas e nas celebrações. Infelizmente os costumes de que tratam e proporcionam boas relações sociais atualmente e que carregam sentido em suas reproduções não são valorizados, sendo assim, corre-se o risco de se perder no tempo aquilo que identifica o povo e delimita sua ação como agentes de uma cultura.

“O Brasileiro, porém, desprovido de senso histórico, não consegue reconhecer qualquer linha de continuidade com o passado e a tradição. Assim, o Brasileiro enxerga na sociedade uma fotografia instantânea do presente, na qual os traços do passado são interpretados não como tradição, mas como “demonstração da ideologia burguesa alienada” ou qualquer outra etiqueta que impeça o reconhecimento do enlace histórico entre origem e momento atual.” (LISBOA, 2016).

É importante frisar que, as atividades culturais devem ser fomentadas e de competência municipal direcionando assim os meios e mecanismos para a promoção de suas manifestações e realizações, aqui abrimos um parêntese para trazermos a luz do conhecimento e do entendimento, o questionamento do quanto com o passar dos anos a festa de São Sebastião perdeu em seu bojo muitas características que moldam uma festa de padroeiro como em qualquer outro interior do nordeste do Brasil. Não podemos esquecer-nos da contribuição em termos de crescimento econômico e turístico que se revestia a nossa comunidade num todo diante do período da festa.

Parte principalmente também do poder publico local o incentivo e a motivação para a estruturação de qualquer festa que venha a reunir os munícipes em coletivo numa determinada data expressiva para vida e historia da cidade.
 No título III, da educação e da ordem econômica e social, capítulo I da educação e da cultura no art. 68- da lei orgânica municipal de Jataúba encontramos o seguinte:

O município no exercício de sua competência: 

I – apoiará as manifestações de cultura local;

E no Art. 72 observamos que:

O município incentivará o lazer, como forma de promoção social. (p. 24-25)

Embasados nesses dois princípios norteadores e legalmente legitimados na carta magna municipal se esclarece, portanto qual um dos papeis que o poder municipal tem para com as ações culturais e festivas dentro do âmbito municipal que lhe compete. Devemos recorrer sempre à observação dessas leis para o melhor cumprimento e funcionamento das instituições em nossa sociedade. Lamentavelmente não detectamos no presente um possível esforço de categorias que regulam as promoções de festividades e entretenimento que atraiam de diversas formas e modos, os indivíduos que todos os anos merecem participar desse desejoso evento que deve ser o maior entre outras festividades do município, pois o mesmo evento encontrasse aqui idealizado desde o século XIX.

 
Poderíamos classificar aqui uma serie de elementos que perdemos nos últimos anos com a passagem de gestores e condutores que levados por circunstancias particulares a vetarem de suas pastas a consonância da festa religiosa e social de São Sebastião. A sociedade Jataubense também possui sua parcela de culpa por não pressionarem e exigirem que a festa transcorra com tudo aquilo que deve compor sua realização, como a iluminação festiva das principais ruas, da igreja matriz, a volta do tradicional baile da festa outrora ocorrido na véspera que antecede o grande dia 20. A promoção das retretas e tocadas da quase centenária (1926) banda filarmônica São Sebastião nas em todo esplendor do novenário.

O resgate dos shows de artistas da terra e de nível regional como cantores e bandas, que embalam o coração romântico do povo jataubense. Queremos de fato a volta de tudo àquilo que identifica os mais nobres sentimentos que não se perdem facilmente e nos são muito caros, e por vezes ate se deixam adormecer com a poeira do esquecimento ingrato. 

Devemos tomar sempre como filhos presentes ou ausentes de Jataúba o maior cuidado para com nossa cultura e demonstração de fé, sem jamais esquecer que o que hoje vivemos em nossas manifestações de fé, de lazer, de competição (esporte) são de alguma forma a absorção das ideias que se instalam com muita facilidade em nossas casas, trabalho e interatividade que dominam conscientemente ou não nossas ações como indivíduos, e sujeitos de nossa sociedade que emerge de um tempo, de um espaço plural de crenças e demonstrações de fervor e folia. Nas palavras de Marx e Engels podemos refletir como todas as épocas vividas são instigadas com pensamentos e ideias sobrepostas a existência e convivência humana.
 
“As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante. A classe que tem a sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual, pelo que lhe estão assim, ao mesmo tempo, submetidas em média as ideias daqueles a quem faltam os meios para a produção espiritual.” (p.67-68).

O que não podemos é admitir que pessoas usem um espaço Santo de ensinamentos da palavra de Deus, usem essa influência e esse espaço para se dirigir a pessoas com indiretas, pois, esse não é, nunca foi, e nunca será o principal objetivo da evangelização.

REFERÊNCIAS FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda. Minidicionário Aurélio. 1 ed.- Rio de Janeiro:1977.

APARECIDA, documento: Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. São Paulo e Brasília: Paulus/ Paulinas/ Edições CNBB, 2007.

LISBOA, Victor. Artigo 5-teorias-brasil – Projeto Ano Zero. Site: @ano-zero.com 2016.

MUNICIPAL, lei orgânica. Jataúba PE – 1990. Lei Orgânica Municipal. 1990.

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. 1. Ed.- São Paulo. 2009.


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