quarta-feira, 8 de março de 2017

Denúncia Policial denuncia más condições de trabalho e abuso de autoridade no 24º BPM

Entrevista em tom de desabafo expôs ainda mais a fragilidade na segurança pública

Na terça-feira (07) o repórter Gilson Fernandes, da Rádio Polo FM, entrevistou um policial militar lotado no 24º BPM. O mesmo, que não terá sua identidade revelada, trouxe sérias denúncias que tratam sobre a situação de dificuldades no trabalho vivenciadas diariamente pelos PMs.

Entre as denúncias estão a carência de efetivo, desvio de função com autorização de superiores e o não pagamento de gratificações, além do sucateamento de armas, coletes a prova de balas, de viaturas e outros equipamentos.

Segundo o policial, os problemas vivenciados acontecem não somente em Santa Cruz, mas em outras cidades que são de responsabilidade 24º BPM e também a nível de estado e país, mas nos ateremos apenas ao conteúdo associado a realidade regional.

Efetivos trabalham com rádios obsoletos e de curto alcance

O primeiro ponto de problemas narrados pelo policial está relacionado a comunicação entre policiais do 24º BPM, sejam entre si ou com os efetivos e as viaturas.

De acordo com ele, os aparelhos usados pela polícia são obsoletos e também não atendem o alcance necessário para uma boa comunicação, fundamental nas ações de combate ao crime.

“Vivemos na região uma falta de comunicação via rádio. Tivemos agora há pouco uma doação, da iniciativa privada, dos empresários daqui da região, de alguns radiocomunicadores para facilitar a comunicação aqui entre os policiais e as viaturas. Porém, os equipamentos são de curto alcance. Não tem como alcançar a região como um todo. São rádios pequenos e o alcance não é muito grande. Sabemos que isso tem que ser feito os investimentos por parte do governo, não da iniciativa privada. Essa má comunicação é um problema de muitos anos na região de Santa Cruz e demais cidades” – disse.


Dificuldades na comunicação geram improvisos para auxiliar no combate ao crime, diz PM

De acordo com ele, a população liga para a central de rádio, onde esta tentaria entrar em contato com os efetivos, porem com dificuldades. A solução, segundo ele, para tentar amenizar o problema é o uso do celular, mas mesmo assim as dificuldades persistem.

“Quando consegue (a comunicação) tudo bem, mas e quando não consegue?! Vai se tentar por telefone, através do celular do próprio policial ou de um celular cedido pela instituição. E quando não tem área? Quando pega ou não pega? A sociedade é que está sofrendo com isso e a rapidez para a viatura ir à ocorrência depende muito de comunicação. O profissional não está tendo essa valorização tanto do governo, quanto da instituição em si” – disse.

Má gestão de oficiais e comandantes provoca desvio de função dos PMs

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De acordo com o policial, a má gestão de seus colegas por parte de seus superiores (oficiais e comandantes) estaria agravando ainda mais a situação da carência de efetivo nas ruas que é ofertado também pelo 24º BPM.

O policial citou que seus superiores determinam que policiais façam segurança privada de juízes e promotores, além de guarnecer órgãos públicos como fóruns. Embora tratando o assunto de forma geral, o mesmo deixou claro que esses fatos também ocorreriam em cidades atendidas também pelo do 24º BPM.

“Vemos nossos oficiais e comandantes desviando policiais de suas funções para fazer funções que não são de sua competência. É de competência dos policiais civis, de agentes penitenciários… Vou citar exemplos: fazer segurança de fórum ou fazer segurança de autoridades, de juízes e promotores. Isso é segurança privada. Ou o governo faz licitações para colocar vigilantes nos fóruns ou as autoridades paguem do próprio bolso para fazer a segurança privada. Isso não é de nossa competência. A lei diz: Policiamento Ostensivo e Preventivo” – pontuou.

Outro ponto de desvio de função, segundo o policial, está relacionado a criminosos que são presos. Procedimentos realizados como custódia em hospitais e fóruns seriam de responsabilidade de agentes penitenciários. Ainda sobre os desvios de função denunciados, os policiais não estariam recebendo gratificações equivalentes a novas funções.

“Para punir os profissionais, a administração sabe; mas para beneficiar… Não!” – desabafou.

Desabafo – Policial afirma já ter recebido ameaças de prisão por superiores ao tentar expor as dificuldades de trabalho

Em um dos pontos mais tensos da entrevista, o policial chegou a afirmar que estaria fazendo as denúncias à imprensa “por não ter mais nada a perder dentro da instituição”, citando que não teria salário digno e nem estrutura de trabalho.

O mesmo chegou a afirmar que as críticas sobre as dificuldades na estrutura de trabalho são consideradas como crime militar, onde afirmou ter recebido ameaças de ser preso por seus superiores.

“Só no mês de fevereiro, fui assediado moralmente e (vítima de) abuso de autoridade. Os oficiais sugeriram me prender, por três vezes. Fica difícil… Isso é um clamor que estou fazendo para que a sociedade veja que o policial militar não é uma máquina, um bicho; que não pode ser tratado como lixo. Eu fico a pensar como ser humano… Quer dizer que o policial militar não é ser humano porque ele é militar?! Não pode falar, não pode expor a sua ideia de pensar que já está querendo desobedecer seu superior ou ferir o código militar? Isso é um absurdo! Vivemos em um estado democrático de direito e temos que ter o livre arbítrio de se expressar” – desabafou.

O policial também aproveitou para enfatizar que os policiais, temendo represálias por parte de superiores, teriam medo de expor os problemas por eles enfrentados.



Ney Lima

APOIO CULTURAL

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